Ilusão das amarras

Trechos do vídeo

 

Em Ilusão das amarras, o corpo vira campo de disputa: uma corda atravessa o rosto, ocupa olhos e boca, administra acesso e regula o que pode ser visto e o que pode ser dito. A obra encena o instante em que obediência muda de nome e passa a operar como submissão, deixando evidente que isso se constrói por ajustes cotidianos, por concessões mínimas que se repetem, por um treino de silêncio que vira postura, rotina, educação do gesto.

Quando “obedecer” vira sinônimo de “ceder”? — é a pergunta que sustenta o vídeo. A corda funciona como imagem do que se aprende cedo e se naturaliza depressa, como a disciplina instalada no cotidiano, a docilidade convertida em valor, o silêncio apresentado como prudência, como proteção, como preço da convivência. A amarra se chama ilusão porque se parece com escolha, com cuidado, com costume, parece “assim é”. Só que a cena devolve a estrutura: toda amarra tem direção, tem método, tem mão, toda amarra produz uma economia do olhar e da fala, define o aceitável, empurra o resto para dentro.

 Dessa forma, a obra insiste em um ponto decisivo: a libertação envolve percepção e envolve mundo. A mudança começa quando o corpo reconhece o nó como nó e quando essa cena deixa de ser privada e ganha dimensão social, porque o mecanismo que aperta um rosto se apoia em pactos que excedem aquele corpo. O enquadramento faz do rosto um território político, tendo o ver e o dizer como campos em disputa. E o que fica, depois da pressão, é uma exigência direta, uma vez que romper a amarra pede ação, linguagem, e coletividade.

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Stills do vídeo

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