Powder Rape

Trechos do vídeo

 

Em Powder rape, a câmera encontra a artista em primeira pessoa. O corpo entra em quadro como campo de prova: pele, rosto, respiração. Um pó vermelho se espalha, adere, sufoca a superfície, vira neblina e ferida, marca e apagamento. A imagem insiste no que costuma permanecer difuso, a violência que se infiltra como atmosfera, recorrente e abrangente, até parecer “normal”. Agressão que aparece como estado, como clima, como um cerco que altera a forma de estar no mundo e de se reconhecer nele.

A presença da própria Ruchita performando para a câmera desloca a obra do testemunho abstrato para a implicação direta. O que está em jogo atravessa quem cria, rompendo a lógica do caso isolado. Quando uma mulher sofre, a cena se amplia: a violência atinge um corpo e alcança uma rede, porque se apoia em hábitos, silêncios, desculpas e nessas “pequenas” permissões cotidianas que educam o mundo a tolerar o intolerável. 

Números globais confirmam a escala dessa estrutura: quase uma em cada três mulheres já viveu violência de parceiro íntimo ou violência sexual ao longo da vida; e, em média, uma mulher ou menina morre a cada dez minutos pelas mãos de parceiro íntimo ou familiar, como se a intimidade pudesse funcionar como licença, e a casa, como fronteira de impunidade.

A instalação multiplica os enquadramentos como quem multiplica os pontos de pressão. O mesmo corpo reaparece em telas distintas, repetindo o impacto, variando o sufoco. Observamos o vermelho deixando de ser cor para se tornar evidência, afinal, estamos diante de uma obra que exige linguagem à altura do que acontece: nome, corpo, imagem e a recusa de qualquer pacto com a cegueira.

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Stills do vídeo

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Registro de exposição

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