Você tem que ser _____
2026, vídeoinstalação, 7'49", dimensões variáveis, impressão fotográfica de montagem digital, dimensões variáveis, instalação sonora, áudio em loop, 5'57", instalação fotográfica com frases vetorizadas e fotografias, dimensões variáveis, instalação interativa com pintura de lousa preta e giz branco
Trechos do vídeo
“Você tem que ser _____” surgiu de uma chamada aberta em rede social e se construiu como um coro de 53 mulheres, entre 21 e 78 anos. Todas vivem em Florianópolis, mas trazem origens múltiplas: cidades e estados brasileiros diversos e também Chile, Argentina e Uruguai. Há diferenças socioeconômicas; mulheres cis, héteros ou homoafetivas; casadas, solteiras ou divorciadas. Em conversa com Ruchita, cada participante elegeu uma imposição de uma lista em construção: “você tem que ser_____”, como quem toca um nervo antigo: “boa menina”, “forte”, “dócil”, “obediente”, “bonita”, “decente”, “tranquila”, “comportada”, “quietinha”, “magra”, “certinha”, “do lar”, “recatada”, “responsável”, “impecável”, “frágil”. Não se trata de escolher um rótulo, mas a frase que mais ressoou dentro dessa pessoa, a imposição que alterou sua postura, sorriso, medo; a que confundiu amor com regra.
Cada uma dessas mulheres foi ao estúdio da artista e, nua, colocou essa ordem em movimento, dançando, performando, coreografando o “você tem que ser _____” como quem expõe a maquinaria do gesto cotidiano: o ombro que baixa, a barriga que contrai, o corpo que vai ao chão, os braços que vão à cabeça, a respiração que pede licença. Ruchita filmou e fotografou esse confronto silencioso entre norma e corpo e, ao final, pediu que cada pessoa escrevesse a frase num papel: a caligrafia como prova material de um comando repetido, mas também como pequeno desvio.
Como resultado, uma instalação multimídia que reuniu vídeo, áudio, fotografias e frases vetorizadas a partir de cada uma dessas caligrafias. O que era um “você tem que ser” sem rosto reapareceu em 53 grafias distintas, e a ordem se desmontou ao ganhar matéria com a espessura de traço, a hesitação, a aceleração, a falha, o excesso. O áudio acrescenta outra camada de presença em que a voz surge como testemunho, como respiração e fricção, trazendo para o espaço aquilo que a frase tenta calar — timbre, pausa, gaguejo, firmeza. Entre imagem, voz e escrita, o trabalho faz do estúdio um lugar de devolução, devolvendo ao mundo a pedagogia cotidiana que nos treina para caber. Em chave feminista, ecoa Rosa Montero (em “Nós Mulheres”), ao mostrar que o que parece íntimo é, muitas vezes, estrutura; e conversa com muitas outras vozes, ao evidenciar que gênero não é essência, mas aprendizagem, é uma coreografia social que se impõe.
Stills da vídeoinstalação em duas janelas
Instalação fotográfica com frases vetorizadas e fotografias
Impressão fotográfica de montagem digital
Instalação interativa
Uma parede pintada com tinta de lousa preta convidará cada visitante a escrever, com giz branco, uma imposição que já foi feita sobre como deveria ser. Muitas vezes históricas, mas atravessando cada trajetória pessoal. Pode ser aquela frase que repetida tantas vezes se tornou quase verdade.
Conforme a exposição avança, a parede se tornará um mosaico coletivo de frases, memórias e experiências. Aquilo que era uma ordem dirigida a uma só pessoa se multiplica, se diversifica, se torna visível como fenômeno compartilhado. Assim, a obra se completa não no estúdio, mas na rua, transformando o espaço público em espaço de fala.
Em cada circulação da exposição, essa instalação é registrada fotograficamente, tornando-se registro documental permanente de quais imposições atravessaram o público que frequentou a exposição. A imposição individual vira experiência coletiva.