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Todo momento de achar é um perder-se a si própria
Com o título inspirado em uma frase de Clarice Lispector, a publicação reúne obras e performances da artista que investigam identidade, vulnerabilidade e os desafios de aceitar a transformação constante.
A obra impressa apresenta fotografias que mostram grande parte da produção da artista que já trabalhou com diferentes suportes, como a fotografia em si, vídeo, instalação e performance, para propor uma reflexão sobre identidade, memória, corpo, silêncio e o desafio de não permanecer da mesma forma.
Ruchita está atenta a atual época, que é marcada por transformações aceleradas e pela pressão constante para construir versões estáveis de quem se é, fazendo com que uma pergunta ressoe para a artista: o que acontece quando cada ser humano aceita que sua identidade também está em constante transformação? Foi a partir desse questionamento que nasceu o livro que, segundo Kamilla Nunes, editora, registra uma pesquisa artística construída a partir de experiências pessoais e da compreensão de que encontrar a si mesmo talvez dependa justamente da disposição de abandonar certezas. "Nos trabalhos escolhidos para compor o livro, é possível perceber que Ruchita sugere reflexões como essa possibilidade de nos permitirmos perdermos-nos a nós mesmos”, observa.
Conforme Ruchita, ao admitir que cada um não se conhece completamente, é possível abrir mão da necessidade de enquadramento, “aí sim, conseguimos nos encontrar de uma maneira mais verdadeira", afirma. Ela conta, ainda, que na arte acontece algo parecido. “Quando a artista se perde dentro da própria obra, ela deixa de querer controlar completamente o processo e nasce algo maior do que ela mesma". Essa reflexão traça um paralelo com a frase de Clarice Lispector, que dá nome ao livro “todo momento de achar é um perder-se a si própria”.
Não por acaso, ao longo de seus trabalhos, ela transforma inquietações íntimas em questões universais, realçando a pressão social para construir uma identidade coerente, estável e permanentemente "pronta". Como se tudo, o tempo todo, fosse perfeito, e a imperfeição fosse um erro.
No trabalho de Ruchita, o corpo deixa de ser apenas suporte para se tornar território de investigação; as marcas passam a existir como memória e crítica; e o silêncio deixa de representar ausência para criar um espaço de contemplação e autoquestionamento. "O silêncio cria um respiro, propondo que cada pessoa observe a própria trajetória e reflita sobre o que realmente lhe pertence e o que é apenas ruído externo", explica.
A reflexão ganha ainda mais força em trabalhos recentes, como na série “Alternar-se”, desenvolvida após a descoberta da diabetes. A condição de saúde de Ruchita passou a integrar sua pesquisa não apenas como experiência biográfica, mas como metáfora da vulnerabilidade humana e da necessidade permanente de adaptação.
Embora tenha origem em experiências profundamente pessoais, a pesquisa de Ruchita dialoga com uma questão cada vez mais presente na sociedade contemporânea: a dificuldade de aceitar que pessoas, corpos e histórias estão em permanente mudança. De acordo com ela, apesar de ser uma era de transformações constantes, a dificuldade de aceitar essa fluidez parece cada vez maior. “Existe um apego à ideia de estabilidade que acaba produzindo sofrimento, e minha pesquisa nasce desse conflito", diz.
Ao reunir diferentes momentos da trajetória da artista, a obra “Todo momento de achar é um perder-se a si própria” convida o público a desacelerar, contemplar e abrir espaço para perguntas que nem sempre exigem respostas imediatas. Em vez de oferecer definições sobre quem se é, o livro propõe reconhecer a transformação como parte da própria experiência de existir.
A obra traz ainda textos críticos produzidos especialmente para a publicação pela pesquisadora e professora Sandra Meyer, pela curadora, artista e editora Kamilla Nunes e pelo fotógrafo, curador e artista canadense Scott Macleay, ampliando as leituras possíveis sobre a trajetória da artista.
O projeto contempla também uma versão digital gratuita e a produção de um audiobook voltado a pessoas com deficiência visual. O mesmo foi realizado com apoio do Município de Florianópolis, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.
Letícia Bombo
Jornalista, Florianópolis, Julho de 2026
Visualize abaixo o livro digital na íntegra